Fotografia
O Cérebro de Lúcifer

Deus havia feito o homem e o colocou em uma espécie de redoma de vidro, com receio de dar a ele o mundo que acabara de criar; Deus queria se certificar de que dar ao homem o poder de escolher entre o certo e o errado era o melhor para a humanidade. Lúcifer, sempre muito astuto, quis estragar a criação divina e, sabendo do poder de escolha e da falta de conhecimento do homem quanto a seu criador, resolveu visitá-lo. Deus, a quem não escapa nenhuma informação entre o céu e a terra, permitiu, aquele seria um excelente teste para ver até onde a inteligência e o livre arbítrio, dado por Ele ao homem, poderia levar a humanidade:

- Olá homem, eis o seu criador, que tudo pode e sabe - falou o Lúcifer endiabrado.
- És tu mesmo Mestre, ou meus olhos me enganam? Como saber se isso é verdade? Perdoai-me, mas permita-me lhe por à prova: se você tudo pode e sabe, qual foi a primeira coisa que fiz depois que acordei?

Fácil para Lúcifer foi dar essa resposta:

- Você me pediu para ter um bom dia.

O homem ficou impressionado e acreditou definitivamente que aquilo não era ilusão de sua mente e estava diante de seu Pai criador, que o tinha escutado a prece. Desde que se percebeu no mundo, o homem ficou confuso, afinal para quê ele estava ali, o que seria que esse Deus, que só conhecia por escrituras, o pôs ali. Então, feliz da vida, resolveu acabar com a sua aflição perguntando a coisa que mais lhe dava medo:

- Pai que tudo pode e sabe, tira a minha aflição. Quando me colocastes aqui, não me dissestes como ou o que iria acontecer, eu não sei quando dar o próximo passo, pois nunca tenho certeza de onde estão os buracos; então, meu Deus, por favor me responde, o que acontecerá, como será o futuro?

Lúcifer ficou nervoso, foi o anjo número um de Deus, já fora um Anjo de Luz e acompanhava o divino desde o início dos tempos, portanto sabia de tudo que se havia passado; mas nunca teve acesso aos tempos futuros. Furioso com a esperteza despretensiosa do homem, sem saber o que fazer, sumiu, deixando o homem ainda mais confuso, porque a sua eterna pergunta continuava sem resposta.

A fotografia é como o cérebro de Lúcifer, ela só conhece o que passou e a única coisa que pode é remontar o passado; por isso, ela nada mais é do que um registro, tudo que podemos ver em uma foto é um fato que aconteceu e que, assim como dizem, um raio não cai em um mesmo lugar duas vezes, essa ação não vai se repetir da mesma forma jamais. "Registro" é a palavra que pode traduzir a fotografia. Quando nós fotografamos algo, seja lá o que for, fazemos o registro dele, estamos recortando uma fração de segundos no espaço, a qual será uma representação estática daquele instante, para ser visto no futuro. Ainda que não seja essa a intenção do fotografo, ele apenas escolhe o momento que será eternizado, registrado - para manter a palavra.

Mesmo que o objeto fotografado seja completamente forjado, ele existiu naquele momento, seus raios luminosos penetraram a câmera escura através da objetiva e foram repousar nos grãos de prata do filme. Aqui temos seguinte a questão: Podemos chamar de fotografia, o registro de uma situação produzida? Por exemplo, quando uma pessoa corta a sua orelha com uma lâmina, forçando uma situação, produzindo uma imagem, e a fotografa, será que ele está praticando fotografia? Interessante que essa prática de utilizar o corpo como parte do objeto da imagem é denominada "Body Art", seria fotografia ou arte?

É inegável que seja uma foto, porém não se pode considerar como sendo fotografia no sentido completo da palavra, de registro de um instante real; neste caso se abdica da posição de fotografo para se transformar em um pintor ou escultor, a máquina fotográfica é transformada em um pincel, que não espalha a tinta, mas a suga. Quando se fotografa uma imagem produzida, desaparece o registro social para dar lugar à arte, transfiguração da realidade. O corte da orelha está na imaginação, não proveio de uma situação verdadeira; quem cortou a orelha, transformou o real para fotografar, só que dessa maneira perdeu o elemento básico da fotografia. Não se pretende discutir a validade dessa prática ser arte ou não, e sim a incompatibilidade dela como um documento social.
Em uma outra prática, quando se utiliza flashs ou põe um filtro na lente da câmera, alterando a cor, os traços ou outro aspecto qualquer da imagem real, a caracterização do pintor fica ainda mais evidente, já que, desta maneira, é como se jogasse "tinta" sobre a imagem (a tela), produzindo verdadeiros foto-quadros, quadros em estrutura de fotos. Como escreveu Philipe Dubois - defensor destas modalidades como sendo fotografia - "o verdadeiro documento fotográfico presta conta do mundo com fidelidade"; e, em dizer isso, Dubois foi completamente ambíguo quanto as suas idéias; ora, como prestar conta do mudo com fidelidade alterando as cores e outros elementos do real? O que se deveria fazer é criar uma outra denominação para esse tipo de imagem, que poderia se chamar fotopintura, a pintura feita a partir de uma máquina fotográfica.

Os artistas (pintores, escultores) criam uma pseudo-realidade, eles não podem, por mais perfeitas que sejam suas obras, reproduzir o real; esse é o papel atribuído à fotografia, que reproduz um instante de realidade dentro do que for possível à lente enquadrar; mas quando utilizada pelos fotopintores, é uma cópia perfeita de uma situação imaginada, é arte simplesmente.

A fotografia é uma memória, a imagem dela está morta, está nas recordações de quem viveu o fato registrado. Não quero dizer com isso que a arte não esteja presente na fotografia cotidiana - como muitos apregoam ainda hoje - está sim; só que durante um momento apenas, quando no instante do 'click', hora que o fotógrafo decide quais são os elementos que ficam dentro e quais ficam de fora do retângulo áureo, se vai ou não aprofundar o campo, se fotografa por cima ou por baixo e todas as outras decisões que o fotografo tem de fazer, e que acabam por conotar a sua subjetividade. Da mesma forma, quem é fotografado vai está transparecendo a sua individualidade na forma como se porta frente à câmera e também poderá transmitir sua mensagem.

Logo, na fotografia não usufruímos a ausência do homem, como propõe André Bazin, na sua Ontologia da imagem fotográfica; e sim observamos toda a sua subjetividade no olhar, tanto do fotógrafo, quanto do fotografado. Quem contempla a imagem depois de revelada, poderá ler as duas mensagens; porém sem nunca garantir que as suas decodificações serão tal qual como foram idealizadas. O ato de ler é uma ação completamente pessoal e quanto mais instigante for a mensagem, no sentido de forçar uma interpretação por parte do receptor, mais interessante será a imagem. Portanto, se a foto já for em si uma interpretação simples e clara, o receptor não vai se prender à imagem, pois a mensagem não pedia uma interpretação muito profunda, mas sim uma simples assimilação tão somente. O receptor deve ser obrigado a recriar o espaço e o tempo em que a imagem fotográfica foi tirada para compreender a imagem por inteiro; essa sim irá conquistar o receptor, o qual poderá tirar suas próprias conclusões sobre o que lhe é exposto, "O entendimento e absorção de uma fotografia são tão amplos quanto a capacidade do leitor de se aperceber de suas nuances infinitas" (Gurán, Milton - Linguagem e Informação).

Por sua vez, refletindo o pensamento europeu da época - meados do século XIX, quando a máquina fotográfica de Daguerre (Daguerreótipo) ainda dava os seus primeiros passos - Baudelaire, expoente poeta francês, negava publicamente a fotografia como forma de expressão artística, dizendo que "a fotografia não poderia ser ao mesmo tempo artística e documental, pois a arte é definida como aquilo que permite escapar do real"; entretanto a fotografia também retrata o imaginário, um imaginário que está inerente ao real. Até uma paisagem possui a sua individualidade. Toda foto guarda significados além do simples realismo aparente que fica em sua superfície, e quando estabelecemos um sentido para o que produzimos, estamos fazendo arte.

Glauco Gonçalves

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