O
Presente Projeto foi apresentado para conclusão do Curso de Jornalismo,
deptº de Comunicação Social-UFRN
Introdução:
Fotografia, o cérebro de Lúcifer
Deus
havia feito o homem e o colocou em uma espécie de redoma de vidro,
com receio de dar a ele o mundo que acabara de criar; Deus queria se
certificar de que dar ao homem o poder de escolher entre o certo e o
errado era o melhor para a humanidade. Lúcifer, sempre muito
astuto, quis estragar a criação divina e, sabendo do poder
de escolha e da falta de conhecimento do homem quanto a seu criador,
resolveu visitá-lo. Deus, a quem não escapa nenhuma informação
entre o céu e a terra, permitiu, aquele seria um excelente teste
para ver até onde a inteligência e o livre arbítrio,
dado por Ele ao homem, poderia levar a humanidade:
- Olá homem, eis o seu criador, que tudo pode e sabe - falou
o Lúcifer endiabrado.
- És tu mesmo Mestre, ou meus olhos me enganam? Como saber se
isso é verdade? Perdoai-me, mas permita-me lhe por à prova:
se você tudo pode e sabe, qual foi a primeira coisa que fiz depois
que acordei?
Fácil para Lúcifer foi dar essa resposta:
- Você me pediu para ter um bom dia.
O homem ficou impressionado e acreditou definitivamente que aquilo não
era ilusão de sua mente e estava diante de seu Pai criador, que
o tinha escutado a prece. Desde que se percebeu no mundo, o homem ficou
confuso, afinal para quê ele estava ali, o que seria que esse
Deus, que só conhecia por escrituras, o pôs ali. Então,
feliz da vida, resolveu acabar com a sua aflição perguntando
a coisa que mais lhe dava medo:
- Pai que tudo pode e sabe, tira a minha aflição. Quando
me colocastes aqui, não me dissestes como ou o que iria acontecer,
eu não sei quando dar o próximo passo, pois nunca tenho
certeza de onde estão os buracos; então, meu Deus, por
favor me responde, o que acontecerá, como será o futuro?
Lúcifer ficou nervoso, foi o anjo número um de Deus, já
fora um Anjo de Luz e acompanhava o divino desde o início dos
tempos, portanto sabia de tudo que se havia passado; mas nunca teve
acesso aos tempos futuros. Furioso com a esperteza despretensiosa do
homem, sem saber o que fazer, sumiu, deixando o homem ainda mais confuso,
porque a sua eterna pergunta continuava sem resposta.
A fotografia
é como o cérebro de Lúcifer, ela só conhece
o que passou e a única coisa que pode é remontar o passado;
por isso, ela nada mais é do que um registro, tudo que podemos
ver em uma foto é um fato que aconteceu e que, assim como dizem,
um raio não cai em um mesmo lugar duas vezes, essa ação
não vai se repetir da mesma forma jamais. Registro
é a palavra que pode traduzir a fotografia. Quando nós
fotografamos algo, seja lá o que for, fazemos o registro dele,
estamos recortando uma fração de segundos no espaço,
a qual será uma representação estática daquele
instante, para ser visto no futuro. Ainda que não seja essa a
intenção do fotografo, ele apenas escolhe o momento que
será eternizado, registrado para manter a palavra.
Mesmo que o objeto fotografado seja completamente forjado, ele existiu
naquele momento, seus raios luminosos penetraram a câmera escura
através da objetiva e foram repousar nos grãos de prata
da película. É claro que aqui temos seguinte a questão:
Podemos chamar de fotografia, o registro de uma situação
produzida? Por exemplo, quando um fotógrafo corta
a sua orelha com uma lâmina, forçando uma situação,
produzindo uma imagem, e a fotografa, será que ele está
praticando fotografia? Essa prática de produzir o próprio
corpo para fotografar é denominado de Body Art, seria
fotografia ou arte?
É inegável que seja uma foto, porém não
posso considerar como sendo fotografia no sentido completo da palavra,
de registro de um instante real; neste caso se abdica da posição
de fotografo para se transformar em um pintor ou escultor, a máquina
fotográfica é transformada em um pincel, que não
espalha a tinta, mas a suga. Quando se fotografa uma imagem produzida,
desaparece a imagem fotográfica; a realidade, para dar lugar
à arte, transfiguração da realidade. O corte da
orelha está na imaginação, não proveio de
uma situação verdadeira, e sim falsa; quem cortou a orelha,
transformou o real para poder fotografá-la, só que dessa
maneira perdeu o elemento básico da fotografia. Não discuto
a validade dessa prática ser arte ou não, e sim a incompatibilidade
dela como um documento social.
Em uma outra prática, quando se põe um filtro na lente
da câmera, alterando a cor, os traços ou outro aspecto
qualquer da imagem real, a caracterização do pintor fica
ainda mais evidente, já que, desta maneira, é como se
jogasse tinta sobre a imagem (a tela), produzindo verdadeiros
foto-quadros, repito, não são fotos, são quadros
em estruturas de fotos. Como escreveu Philipe Dubois defensor
desta modalidade como sendo fotografia - o verdadeiro documento
fotográfico presta conta do mundo com fidelidade; em dizer
isso Dubois foi completamente ambíguo quanto as suas idéias,
ora, como prestar conta do mudo com fidelidade alterando as cores e
outros elementos do real?
Deveria ser criada uma outra denominação para esse tipo
de modalidade que poderia se chamar fotopintura, a pintura feita a partir
de uma máquina fotográfica.
Os artistas (pintores, escultores) criam uma pseudo-realidade, eles
não podem, por mais perfeitas que sejam suas obras, reproduzir
o real; esse é o papel atribuído à fotografia,
que reproduz um instante de realidade dentro do que for possível
à lente enquadrar; mas quando utilizada pelos fotopintores, é
uma cópia perfeita de uma situação imaginada, é
arte simplesmente.
A fotografia é uma memória, a imagem dela estará
morta, assim como as recordações de quem viveu o fato
registrado.
Não quero dizer com isso que a arte não esteja presente
na fotografia cotidiana, está sim; só que durante um momento
apenas, quando, no instante de abrir o obturador, o fotografo decide
quais são os elementos que ficam dentro e quais ficam de fora
do retângulo áureo, se vai ou não aprofundar o campo,
se fotografa em ploungeè ou contra-ploungeè e todas as
outras decisões que o fotografo tem de fazer, e que acabam por
conotar a sua subjetividade. Da mesma forma, quem é fotografado
vai está transparecendo a sua individualidade na forma como se
porta frente à câmera e também poderá transmitir
sua mensagem.
Assim sendo, a fotografia também retrata o imaginário,
porém um imaginário que está inerente ao real.
Até uma paisagem possui a sua individualidade. Toda foto guarda
significados além do simples realismo aparente que fica em sua
superfície, e quando estabelecemos um sentido para o que produzimos,
estamos fazendo arte. Baudelaire diria que a fotografia não pode
ser ao mesmo tempo artística e documental, pois a arte é
definida como aquilo que permite escapar do real; mas creio que isso
é completamente possível. Logo, na fotografia não
usufruímos a ausência do homem, como propõe André
Bazin, na sua Ontologia da imagem fotográfica; e sim observamos
toda a sua subjetividade no olhar, tanto do fotografo, quanto do fotografado.
Entretanto somente quem foi fotografado será capaz de fazer uma
leitura completa da imagem, já que ele pode fazer uma leitura
emocional, racional e é o único capaz de ler a imagem
a partir dos sentidos, pois apenas ele apalpou aquelas coisas que estavam
ao seu redor naquele instante, só ele sentiu o cheiro do lugar
que estava durante o momento em que foi capturado. O fotografo esteve
no mesmo ambiente, mas sempre por trás do escudo da máquina,
mantendo-se sempre à margem da situação, não
terá uma leitura tão completa quanto o seu alvo, ficou
restrita ao que lhe aparecia no visor.
Para quem contempla a imagem depois de revelada, poderá ler tanto
a mensagem do fotografado, quanto a do fotógrafo, os dois estão
explicitados na imagem; porém sem nunca garantir que as suas
decodificações serão tal qual como idealizaram.
O ato de ler é uma ação completamente pessoal e
quanto mais instigante for a mensagem, no sentido de forçar uma
interpretação por parte do receptor, mais interessante
será a imagem. Portanto, se a foto já for em si uma interpretação
simples e clara, como, por exemplo, uma fotografia em que o repórter
fotográfico colocou uma fila de ovelhas ao lado de uma fila de
homens em uma guerra (transmitindo claramente a intenção
do fotografo de comparar os homens na guerra a ovelhas), o receptor
não vai se prender a imagem, pois a mensagem não pedia
uma interpretação muito profunda, mas sim uma simples
assimilação tão somente. O receptor deve ser obrigado
a recriar o espaço e o tempo em que a imagem fotográfica
foi tirada para compreender a imagem por inteiro; essa sim irá
conquistar o receptor, o qual poderá tirar suas próprias
conclusões sobre o que lhe é exposto, O entendimento
e absorção de uma fotografia são tão amplos
quanto a capacidade do leitor de se aperceber de suas nuances infinitas¹
.
A fotografia,
por não impor condições gramaticais para ser compreendida,
é uma importante janela aberta para o mundo, por isso pode e
precisa ser utilizada como tal, levando às pessoas tudo aquilo
que o mundo tem, mas que não era do conhecimento de todos. Ela,
quando jornalística, também pode ser um meio de denúncia,
apontando o que há de belo e deve ser preservado, mas também
apontando o que há de triste e precisa ser alterado. O papel
primordial do fotojornalista é como já disse Sebastião
Salgado, e eu repito, tornar visível o invisível.
E esse é o tino desse trabalho.
¹
Gurán, Milton _ Linguagem e Informação, ed.